22.5.18

ABRAÇOS GRÁTIS

Um abraço! Hoje é o dia do abraço. Na realidade, a linguagem dos afectos é relegada com vergonha pelos cânones sociais mas também pessoais! O abraço cura. Um beijo cura. Um sorriso cura. Um estar cura! Revigora a energia psíquica, humaniza, pacifica! Mas não. A ostentação obtusa do self made man leva ao exagero a distância interior, e julgando-nos metidos numa couraça vistosa, sufocamos a nidificação da própria alma! No reverso de uma moeda guerreira, opulenta e forte, está ...sempre a fragilidade de um amor interrompido!
 
Um "estou aqui" é bálsamo, ansiolítico e antidepressivo na prossecução da caminhada, porque importante não é a rua habitual, mas os becos que nela desembocam. Calcorreá-los como quem se pavoneia numa praça é aviltante da dignidade alheia; mas senti-los e percebê-los como únicos e diferentes, é ser digno de um santuário que de outra forma ninguém saberá existir. E há muitos pedidos mudos e envergonhados, recusando-se a admitir a fragilidade da condição humana.
 
Que venha daí esse abraço, e esse beijo e essas lágrimas e sorrisos! É que só temos uma vida. Ainda que com muitos nomes.

17.5.18

O AMOR NÃO TEM SEXO

O preconceito é uma defesa ignorante do que não conhecemos. O Parlamento Europeu e a ONU declararam o dia 17 de Maio como Dia Internacional contra a Homofobia. Ora é muito claro que uma pessoa homossexual difere de uma heterossexual apenas no género do objecto do desejo. Ostracizar uma pessoa homossexual, homem ou mulher, é o mesmo que culpar uma pessoa por ter um metro e oitenta. Estúpido, não é? Só os falsos moralismos, a ignorância e a incapacidade da aceitação do diferente, são obstáculos às pessoas homossexuais (não a sua homossexualidade), acabando por se verem impedidas de se realizarem afectivamente, hipotecando o amor e com ele a capacidade de uma vida livre e feliz. De novo, cabe perguntar: estúpido, não é?
 
Somos fruto de uma cultura e também vítimas dela. Há que aceitar as diferenças, e de as pessoas viverem os afectos e a sexualidade na sua perspectiva psicodinâmica, e não apenas até onde as deixamos, sendo que, muito importante, não podemos restringir a sexualidade à genitalidade, e com isso não lhe perceber toda a sua linguagem e realização afectiva.
 
Na realidade, existe um estigma fortíssimo, directo ou omisso, contra quem parece fugir à norma. O problema não reside na diferença, mas na rejeição à sua aceitação, e confundindo isto, arranjamos um silogismo social e cultural que leva, no extremo, à pena de morte em determinados regimes, a sanções várias, ao bullying e à exclusão social.
 
Somos ignorantes da própria condição humana e sempre que não percebemos conceitos básicos de respeito pelo outro, entramos em caminhos medievais de despotismo pessoal escudado no brilhante argumento da suposta normalidade. Poderá um peixe dar uma volta pelos céus, ou um pássaro viver debaixo de água? Se ambos não entenderem que a sua diversidade é também a sua identidade e razão de estar ali, vão passar a vida a tentar voar ou mergulhar, numa tentativa suicida de denegação existencial. E tantos são os que não se assumem sequer para si mesmos, deprimem e se suicidam precisamente por causa destes mimos colectivos e sociais de desprezo e marginalização. E não se trata apenas de tolerar um comportamento; é muitíssimo mais do que isso. Porque para as pessoas amputadas à sua própria realização pessoal e amorosa por meros interditos sociais, é, além de uma desinteligência colectiva, um drama para os próprios, como se criminosos por simplesmente amarem!
 
Não podemos ostracizar quem difere no seu modus vivendi, sobretudo quando é determinado pelo seu próprio código genético, mas aceitá-lo como acabámos por aceitar pessoas que antes tinhamos como escravos por não terem dignidade de seres humanos (os escravos eram coisas), ou que sendo de raça diferente deviam ser toleradas na comunidade.
 
O senso comum é o pior inimigo que conheço, e é assim que estamos em pleno séc. XXI: com a Internet numa mão, e a pedra lascada da ignorância noutra! E no mundo dos afectos não existe bitola, regra, lei, norma, jurisprudência ou mandamento que diga como é. É como cada um sente, na liberdade de ser ele mesmo, o Outro, aquele a quem devemos vénia numa reciprocidade respeitosa e amiga de quem comunga a própria humanidade.

11.5.18

VIVER O PRESENTE

Ninguém é feliz todos os dias, e muito menos se não tiver e souber ser alma! É preciso corrigir o nosso eu. É necessário viver com paixão, sentindo a profundidade do abismo e o estremeção da alegria, sob pena de chegarmos ao fim sem termos tido, sequer, uma vida!

Aquela coisa do futuro para cá, futuro para lá, é também uma ilusão, porque nos descompromete no momento presente, onde cada gesto, cada acto fazem tão mais sentido do que adiar o viver para um futuro que somos nós que criamos e não um destino onde temos de chegar. 

Só valorizando o presente e fruindo o momento, podemos pacificar essa idealização abstracta de um dia acontecer qualquer coisa espectacular. Mas as coisas espectaculares são as de agora, se soubermos fazer tempo e espaço para nós e com os outros, porque espectacular será sempre a abertura, o encontro e o amor, nos pequenos prazeres da  vida que diariamente alimentam a verdadeira felicidade, e não a ideia que dela temos, como banquetes ocasionais  que só valem nessa  altura! O resto, é deslocar o verdadeiro objecto da felicidade e com isso nos queixarmos de nunca a encontrar...

6.5.18

FREUD E O (DES)AMOR

Freud faria hoje anos. "A psicanálise é, na sua essência, uma cura pelo amor", dizia ele. Na realidade, muitos dos nossos problemas são fruto de solidão, de aguentar a todo o custo o fardo emocional da competição e do desamor, de nos rasgarmos interiormente para brilharmos com um fulgor que esconde as nossas próprias sombras. Mas nada disso é inteligente!
 
A resiliência, a persistência, o acreditar em ir mais longe e não desistir, não é a competição do mais forte ou a inflamação do ego que, não raras vezes, leva à depressão e ao psiquiatra, mesmo que se negue a síndrome da autosuficiência, campo ilusório que invariavelmente conduz ao sofá do terapeuta.
 
Ninguém se faz sozinho mesmo quando pensa que sim, e só é inteligente aquele que rega as emoções e se abre ao amor, essa capacidade de nos reconhecermos humanos no Outro admitindo também a falha em nós! Ser humano não é ser perfeito, e endeusar a razão é alimentar a solidão!
 
Freud tinha razão quando dizia que a psicanálise era uma cura pelo amor; não porque seja esse o único caminho, mas sim por ser o último recurso, quando se esgotaram as hipóteses de concedermos a nós mesmos a capacidade de amar...

QUEM É MÃE?

 
 
 
 
Será sempre Mãe, aquele ou aquela que suaviza na alma a dor e fortalece na prossecução da caminhada, mesmo até que os não unam laços biológicos de sangue, mas o abraço interior desse despojamento humano e divino, que geralmente se encontra em quem sabe reconhecer no Outro, a sua própria Humanidade!

20.4.18

LUCIDEZ HUMANA

 
 
Vivemos numa sociedade de competição permanente, a escolher sempre o melhor de tudo, mas esquecemo-nos que muitas das supostas necessidades, somos nós que as criamos, e são perfeitamente dispensáveis.
 
Os nossos pensamentos criam a nossa realidade, e os pensamentos automáticos são produtos de crenças e preconceitos que interiorizámos, muitas vezes sem nos apercebermos disso.
 
Saber ter tempo para entrar em contacto com as nossas emoções, é um trabalho acessível a qualquer um evitando muitas fases depressivas que, de outra forma, nos levará a cair, ciclicamente, nos mesmos erros e problemas.
 
Reflectir e alterar o padrão comportamental, a forma de lidar connosco mesmos e com os outros, é perceber que "só na escola dos baldões da vida se faz o doutoramento para a tarefa de viver".
 
Porque só assim nos realizamos como pessoas, e não como servidores do ego, do socialmente correcto ou de competições inibidoras de liberdade interior e saudável convivência e, dessa forma, saber que um dia quando olharmos para trás, foi sempre o Amor e a autenticidade que valeu a pena e deu razão à existência...

13.4.18

DIA INTERNACIONAL DO BEIJO

Hoje é o dia internacional do beijo, mas o beijo, tal como o sorriso, é só outra forma de abraçar!
 
Devemos dar gratuitamente o que gratuitamente recebemos (muito pouco é verdadeiramente nosso), e o contacto físico, menorizado e dissolvido ao longo da evolução humana, é tão importante que, inclusivamente, existem terapias baseadas precisamente no abraço, tal como no grito, porque uma e outra coisa (abraçar, beijar, tocar... e pôr cá fora a raiva ou o choro) foram socializados para comportamentos ditos correctos, cortando essa possibilidade de transmissão de energia, alento, apreço e vida, sem falar na necessidade psicológica de exprimir as emoções básicas, como algumas destas...
 
É muito importante passarmos por cima das convenções sociais sempre que elas não passem disso, e de alguma forma forem tampão daquilo que devia ser natural, genuíno e espontâneo: darmo-nos! Aqui ficam beijos e abraços apertados, antes que nos robotizemos sem dar por isso...

9.4.18

FORMA E ESSÊNCIA

Habituámo-nos à personagem e não à pessoa. Falta humildade e serviço, bondade e modéstia; prevalece o ego, o endeusamento da finita razão e o socialmente correcto. Vivemos amassados por tanta informação, anestesiados no poder tecnológico, no bramir do dinheiro, a angústia do futuro, e mal sabemos o que é a comunicação da alma. Ridicularizamos quem caminhe em sinal contrário, somos cordiais mas pouco autênticos, julgamos sem receios e tornamo-nos menos pessoas.
 
Falta-nos conduzir o Tempo e não de ser levados animalescamente por ele. Falta-nos soltar as palavras belas e inconfundíveis como se fossem pequenas fontes de água fresca, e não uma sucessão verborreica a imitar um esgoto que a espaços convulsos deita água suja ao mar. Falta o Encontro. Aquele em que saímos de nós para o podermos ter verdadeiramente!
Falta-nos a leveza do ser. Não estar só ao lado dos grandes ou dos fortes, do socialmente giro ou da moda. Dar muito crédito a quem já o tem, por moda ou mérito, relegando a essência dos anónimos! É aí que me revejo. Em encontrar por dentro e não por fora, em credibilizar quem é ostracizado ou fingidamente elogiado.
 
Precisamos de amor e de partilha. Verdadeiros, não sociais. De cortar silêncios e empreender caminhos. Não bajulação. Precisamos de renovar a alma e tirar o bolor racional que nos corrompe. Há muito azul por conhecer debaixo da cinza vulcânica com que maceramos os dias.
Estamos muito habituados a erguer camadas e camadas de defesas, a ser adultos e bem parecidos nas palavras, nos sítios que frequentamos, no crédito que damos e queremos ter, mas falta tanta vez a simplicidade espontânea da alma, que manda o socialite dar uma volta, e não cuida se é um gesto censurável socialmente ou se apenas aplaudimos os grandes.
 
Viver não é acumular coisas ou preencher a agenda, mas este descalçar do eu social numa partilha que cabe a cada um fazer e descobrir, não como quem passa, mas como quem escuta... e fica... Porque sem entrega e sentido de humor, simplicidade e sorriso, sem saber ser criança em adulto, desumanizamo-nos!