22.11.17

POEMA DE TI

Na noite silente, calma e amiga
comungas a dor,
E na alvorada constante do teu desencanto
sofres a vida em tristeza e temor.

Aquieta teus olhos pousados no chão
Pacifica essa noite existente e vencida
Reergue-te assim do abismo gracio
Onde as asas te consomem no sonho perdido 
E de olhos no céu e com mãos em dádiva
Mãos abertas de piedade e mágoa
Sorri, afinal, pela tua oração
acordando baixinho de um sono refém
E na luz do olhar, do deserto e da noite
Encontra as pegadas que um dia perdeste
Levanta-te pó, cinza e cera
que as velas da vida maceraram em ti
Na morada caótica da aflição e dor
Moram também espamos de luz

Faz-te e refaz-te
com tudo e com nada que tenhas em ti
E o vento que lava, que traz e que leva
adormece no colo do desejo e sentir
E retomando, por fim, o mesmo caminho
em glórias e fracassos de um único ser
entrega-te ao dom, à vida e à morte
em sois de alegria perturbada e veloz.

Teus olhos cansados dizem na noite 
o brilho da luz.
E num deserto sereno
erguem-se, também, poços de amor.
Luares da alma em gotas imensas
saciados de paz
E serás para sempre imagem cravada na chuva que dorme.
E em ciclos eternos de dor e de paz
Em convulsões amenas de um hábito antigo
Descobres que não há universo sem ti
Nas constelações perdidas dos que teu mundo povoam.

18.11.17

OS CEGOS QUE VÊEM

 
 
 
 
 
Um cego que não nos conhece o rosto, vê-nos sem filtros e na realidade que podemos ser, descontadas as defesas que usemos (ou não) com ele. E isso é, sem dúvida, uma relação bonita, mesmo que ocasional. Não formula ideias para além do que mostramos na conversa, pelo simples facto de não saber se somos bonitos ou feios, maltrapilhos ou selectos, informais ou alternativos! Tem para si a substância que damos, e responde com a sinceridade do que recebe, porque não elabora preconceitos externos! E este é um trabalho que todos devíamos ter, além das aparências! Sermos cegos humanos para uma relação tão mais verdadeira...

2.11.17

2 DE NOVEMBRO

Celebra-se hoje, na liturgia católica, o dia dos Fiéis Defuntos. É um dia que leva muita gente ao cemitério (a maior parte aproveita o feriado da véspera), numa romaria que se perpetua até passarmos à mesma condição. Mas o que é isso de defunto? E o que é ísso de fiel? Uma pessoa que soube fazer-se representar a si própria pela verticalidade dos seus valores e dos seus princípios? Se um “defunto” é um ser inanimado, então quase todos andamos em exéquias, e se ser-se “fiel” é possuir valores não domesticáveis, então a terminologia usada é uma homenagem graciosa.

A questão que se coloca não pende para os que desapareceram do nosso convívio, mas para nós que continuamos o fado da criação, seguindo exemplos, moldando atitudes, aprendendo o erro! A experiência faz-nos! A morte também. Afinal, que catálogo de emoções seguimos nós, ao ponto de hipotecarmos a vida? A que prescrições sociais estamos nós restringidos? À lógica do racionalismo puro? À moral egoísta? E tudo isto para quê? Credibilidade social?

Ainda que mortos e, talvez por isso, dizem-nos consabidamente que o tempo é agora nosso. Para isso, mais do que lembrá-los, é necessário reflectir sobre nós mesmos. No juízo colectivo do socialmente correcto, nos cumprimentos e favores capciosos que fingem altruísmo e atenção, no passaporte obsessivamente carimbado com o visto da casa, do carro, do emprego e da família até à contracapa da reforma! Se viver for isto, então mais do que lançar um olhar ao passado pela recordação sentida de quem amámos, há que atribuir-lhes o exclusivo da vida, porque se os mortos têm a natural legitimidade de nada poder fazer, nós temos a ínsita obrigação de saber morrer antes do dia final. Morrer não é extinguir-se, mas dar-se. E dar é um acto de amor, de criatividade e de Vida!

Nada vale do que teorizamos na metafísica do viver. Nada vale sem o amor inteiro e não pluri-partido, como uma baby-sitter que presta atenção a todos e a ninguém! Porque como o Sol irradia o seu brilho e fulgor sem se importar com a sensibilidade de quem passa à luz, assim o Amor deve fazer, sem cuidar do egoísmo alheio. Muita gente vai hoje aos cemitérios, mas talvez, afinal, que os mortos sejamos nós.

30.10.17

AMOR PRÓPRIO NÃO É EGOISMO

Escrevo amiúde sobre a importância dos recursos emocionais, sobre a necessidade da partilha, da amizade e do amor para nos realizarmos e sermos em plenitude (a questão profissional nem sempre depende de nós e por isso não a incluo neste exercício), mas se devemos fomentar a entreajuda e o espírito de entrega cujos beneficiados primeiros somos nós, é igualmente da mesma importância a consciência de que não devemos hipotecar a nossa felicidade a um outro alguém.

Acontece particularmente nas relações amorosas, deprime-se e tudo é um vazio enquanto não encontramos alguém, ou transfere-se simplesmente para o outro o motivo de me sentir bem. E claro que faz bem, que nos põe loucos, eufóricos, com força para combater o mundo sozinhos, porque metidos na força do outro, mas é das nossas forças que precisamos!
 
Também acontece nos pais que depositam nos filhos a sua razão de viver, geralmente mais nas famílias agora monoparentais e que em tempos já foram um casal, mas o erro é o mesmo.
 
Se o que há a mais são egoísmos e vazios, falta de amor e de entrega, outorgar exclusivamente ao outro a razão da nossa existência, não é amor: é dependência, é não acreditar o suficiente naquilo que somos, e viver um destino que, verdadeiramente não é o nosso.
 
Quem apanhará os estilhaços se uma relação se quebra? Se os filhos tiverem atitudes graves de desamor e abandono ou forem viver para longe? É essa força primordial que é preciso deixar em piloto automático, não como quem ama ou se entrega menos, mas como quem precisa de saber que tem direito a ser feliz mesmo que o outro não esteja lá.

19.10.17

CORAGEM DE SER PESSOA







Sem distanciamento interior, temos sempre tendência para justificar os actos, mesmo que a atitude seja reprovável! Além de habitarmos um mundo confuso e desordenado, legitimamo-lo pelas nossas acções e pelos nossos silêncios. Inalamos a poluição humana sem sentido crítico, além das visões e crenças pessoais, tornando-nos elos de uma massa escudada em si mesma.

Assistimos a uma descaracterização do ser humano naquilo que devia ser a essência da verdade, e depois achamos normal desde as inverdades políticas, aos gestos incivilizados, erros de palmatória ou falta de puro sentido de ética! Esquecemos dramaticamente que os valores não são bens transacionáveis conforme nos dê jeito ou não defendê-los! O sentido de justiça e imparcialidade devia ser sempre superior às opiniões de circunstância e conveniências de momento.

É necessária a aprendizagem do Amor, mais do que a simples empatia da solidariedade, e o Amor é sempre justo e verdadeiro! Não a imagem que fazemos dele! E o verdadeiro passaporte para a condição de ser Pessoa é a formação humana, porque só ela preserva os valores e garante a justiça! Cabe-nos, por isso, estar atentos e actualizar as nossas decisões. Antes que nos desumanizemos sem dar por isso.


13.10.17

DESCONSTRUIR O EU

A desconstrução do eu requer muitos recursos, mas pelos quais devemos diariamente lutar. Humildade para nos reconhecermos mais falíveis e finitos do que nos pensamos, o que é nova machadada no ego sempre sequioso de mais brilho e poder! O ego é um centro de comando que necessita continuamente de vigilância, sob pena de autismo de valores e capacidades! Um pouco mais abaixo, e surgem complexos de inferioridade; um pouco mais acima, e já nos julgamos omnipotentes!
 
Outro recurso necessário à desconstrução do eu, sempre maquilhado com preconceitos, valorações distorcidas e percepções erradas da realidade, é a coragem para enfrentar a mudança, os medos e até as críticas de uma nova visão por parte de quem ainda não conseguiu esse trabalho.
 
A resiliência é outro recurso indispensável, dado que são vários os escolhos no caminho, lento o resultado, e obriga a caminhos mais solitários até à plenitude da assunção pessoal na sua fragilidade e no seu vigor. Sem a noção de que a asuência de uma atitude constante de autocrítica nos tornará balofos a massajar o ego, a mudança não se faz e o crescimento fica comprometido. Importa sermos grandes naquilo que verdadeiramente somos.
 
Precisamos de trabalhar diferentes recursos, para nos realizarmos na plenitude de seres humanos, que se devem a si e ao mundo, muito mais do que geralmente damos e somos.

26.9.17

ENDEUSAMENTO DO EGO

Endeusamos sempre muito o intelecto, a inteligência cognitiva, e fazemos tábua rasa da inteligência emocional. E batemo-nos pelo ego como se fosse o alimento primordial, a massa unificadora de uma humanidade egoísta, de uma atenção fria, de fronteiras muito bem balizadas pelo próprio ego! Outorgamos à razão legitimidade que não tem, pretendemos que entenda aquilo que lhe escapa por simplesmente não ser o seu escopo, e como não é, achamos que o caso fica encerrado quando a razão não consegue explicar.

Somos muito mais do que pensamentos calculistas e aritméticas de vida, e não é no ego nem a inteligência cognitiva que está a realização pessoal; o ego precisa de ser cuidado até onde deve, garantindo a auto estima necessária, mas o resto é vaidade ou sobranceria. 

A melhor maneira de sermos, é sabermos quem somos, e geralmente apenas sabemos o que somos! E metidos nesta cegueira, deixamos o ego alastrar selvaticamente cortando cerce manifestações mais nobres de entrega, porque subservientes ao nosso eu racional que comanda a nossa vida com a idiota vaidade de quem julga saber tudo! Mas só a consciencialização das nossas verdadeiras motivações e porquês, o que implica um exercício de auto-análise e humildade, nos livrará da arrogante opressão do ego, permitindo a liberdade de podermos ser nós...

Só assim poderemos ter outra compreensão do mundo, do outro e de nós mesmos, e perceber que as dinâmicas da vida escapam ao desejo autoritário da visão egotista de quem não consegue ver mais além... É nas coisas simples e na partilha que verdadeiramente somos felizes...

15.9.17

ALMA E PARTILHA

Precisamos de elevação, e de aprender com os dramas da vida a humildade que tantas vezes nos falta, metidos que estamos em falsas certezas. Precisamos de estar acima da maledicência e da baixaria, e de coração sincero prosseguir a caminhada que de outra forma estaria envenenada pela falta de qualidade humana!
 
E precisamos de alma! Só quando a alma está presente a natureza vive, e sem darmos alma aos gestos, vivemos cinzentos como um sol tapado pelas nuvens da soberba fazendo definhar o melhor que há em nós, porque só aceitando a condição humana da força e da fragilidade, poderemos interiorizar que o super homem é uma fantasia do ego, cabendo-nos a humildade do abraço e do sorriso! Precisamos sempre de alma e de partilha...

6.9.17

RELEITURA DO EU

É preciso termos consciência da nossa humanidade. Aceitar que somos vulneráveis, e que carregamos afectos contidos. A entronização do poder pessoal e da sua invencibilidade, conduz-nos à arrogância de tudo podermos, o que, não sendo verdade, gera revolta e frustração. 

É uma negação continuada que a tecnologia, a ciência e a moda ainda mais legitimam! Gerir emoções e afectos é inteligência de vida, inteligência emocional, porque supõe a capacidade de me reconhecer falível e limitado contra todo o estereotipo e preconceito que empurram a fraqueza para as margens da vida; mas isso porque se tem como fraqueza tudo o que ultrapassa o meu poder, e não por na realidade ser algo menor. 
 
Se a minha leitura das coisas estiver errada, as minhas dioptrias humanas podem estar reduzidas, e não perceber a amplitude da realidade como ela é, e não como comparativamente a penso na valoração do mais, do melhor e do eterno.
 
Somos alma, somos pessoa, lembrança, força, rasto, criação, vida! Na realidade, não morremos: é o corpo que cessa funções. E até ao limite da nossa lucidez, gerir as ansiedades e os medos, a dor e a complexidade da vida, tem tudo a ver com esse património humano com que enriquecemos ao longo dos anos, e não com os momentos ou últimos anos que nos tiram o brilho que noutro corpo já tivemos. A mente não envelhece, e o espírito também não. Só o invólucro se deteriora. E confundimos isso com o resto, e baralhando as coisas, baralhamos tudo.
 
Incorporar o saudável riso (e só sabe rir de si quem é interiormente livre) porque fonte de higiene mental e vacina contra a depressão; ter uma dose enorme de humildade que nos retirará o pedestal real ou ficcionado em que tantas vezes nos pomos ou põem (e há tantos pedestais destes), e gerir com a compreensão da dor e dos momentos gloriosos tudo o que passar por nós, é, além de sábio e inteligente, profundamente humano...
 
Pertencemos uns aos outros e é também por isso que a liberdade individual tantas vezes chamada para arbitrar os nossos conflitos, é geralmente uma falácia do nosso suposto poder, porque só harmonizada com outros valores, tem legitimidade para representar alguém. 
 
Ser autenticamente eu, passa pelo riso solto e descontraído, pela humildade de que nada somos, pelo reconhecimento da efemeridade da vida, e pela simplicidade em relevarmos metade para vivermos outro tanto. E em cada dia, urgir a vontade de simplesmente ser...

1.9.17

RECOMEÇO

As férias acabam. O ramerrão começa. Todos voltam aos lugares. Despiram-se anseios, descansou-se a alma, mitigou-se a diária chatice. Mas muitos ficaram, agarrando-se aos muros de cartolina que projecta a ilusão de um castelo bem guardado onde habitam seres de papel, inermes e leves, que não precisaram de se perfilar como os que agora regressam porque já lá estavam, escudados em doze meses pintados a carvão, por vezes rasgados e reconstruídos com a fita cola da vida, e ninguém nota, ninguém vê! Vão continuar perfilados, viajantes cansados de uma bola de cristal, esperando pacientemente a sua vez, a sua glória, a sua luz! Ainda que partam, algures ficou gravada a natureza do sangue que luta e espera. E dessa prova de vida, começará a nobreza de um espírito imortal...