22.4.17

VOLATILIDADE E PERENIDADE

Gosto de saber que nem tudo é efémero, volátil, ao sabor das modas! Gosto de saber que as coisas não são só boas enquanto duram, que cada um pode fazer do momento a sua própria eternidade! Não me assusta a constância das coisas se nela houver a possibilidade, não apenas do erro, mas do desvio criador, do riso que se solta, da palavra que desinstala do bolor interior. De saber que podemos surpreender e ser arrebatados à novidade que não conhecíamos. Gosto dessa constância que não deixando de ser dinâmica nos marca como seres distintos e únicos, porém tão iguais nas necessidades psicológicas de amor e compreensão, de segurança e conforto!
 
E mesmo quando nos calham os azares, de aprender com os erros e não de os legitimar, de abraçar e não de ferir, e de instigar sempre no outro a aceitação do novo e do recomeço pela desconstrução do próprio eu! A fatalidade existe nas coisas que acontecem e o desamor nas atitudes que possamos tomar, mas não saem das nossas mãos nem o coração o sente assim; esses sim, são momentos de prova, mas momentos, e não a constância da perenidade que quisermos ter...

13.4.17

DIA INTERNACIONAL DO BEIJO

Hoje é o dia internacional do beijo, mas o beijo é só outra forma de abraçar! Devemos dar gratuitamente o que gratuitamente recebemos (muito pouco é verdadeiramente nosso), e o contacto físico, menorizado e dissolvido ao longo da evolução humana, é tão importante que, inclusivamente, existem terapias baseadas precisamente no abraço, tal como no grito, porque uma e outra coisa (abraçar, beijar, tocar... e pôr cá fora a raiva ou o choro) foram socializados para comportamentos d...itos correctos, cortando essa possibilidade de transmissão de energia, alento, apreço e vida. É muito importante passarmos por cima das convenções sociais sempre que elas não passem disso, e de alguma forma forem tampão daquilo que devia ser natural, genuíno e espontâneo: darmo-nos! Aqui ficam beijos e abraços apertados para todos... ou, pelo menos, a quem os quiser.

1.4.17

A RESPONSABLIDADE É OUTRA COISA

Não são as estrelas e os planetas que afectam o nosso modo de vida, como diz a astrologia; são as nossas acções, as nossas palavras, as nossas atitudes e também a ausência delas, porque também se faz muito (para o bem e para o mal) mesmo não se fazendo nada. Outorgar às estrelas que vou ter uma semana dos diabos ou uma 4ª feira feliz, é o mesmo que atribuir aos anónimos transeuntes a responsabilidade por eu ir numa direcção em vez de outra.
 
 
São os circunstancialismos que não dependem de nós, mas sobretudo as nossas acções e omissões, que dependem só do que decidimos fazer.
 
Dizermos que não fazemos mal a ninguém, pode ser afinal maior erro do que o erro como o concebemos. Devia haver o Dia Internacional da Responsabilização por Omissão. Porque estamos todos comprometidos uns com os outros, até pelo silêncio! Como a borboleta que batendo as asas num continente provoca uma tempestade noutro... E por isso mesmo os que pretendem estar sossegadinhos no seu canto, estão muito mais expostos do que julgam, porque somos todos convocados a intervir. De resto, o silêncio não deve ser confundido com a inacção. Há gestos que valem mais do que palavras e as atitudes valem sempre mais do que as intenções.
 
O mesmo com o karma. Não existe karma nenhum que não o pedaço que cada um de nós inevitavelmente carrega, fruto da própria condição humana. O karma são os outros e eu mesmo quando não tenho lucidez bastante, humildade suficiente, inteligência que baste... O resto são desculpas que arranjamos.
 
O Homem tem tanto de bom como de repugnante, mas é nos intervalos dos extremismos que somos e nos ajudamos, quando descobrimos que não temos de carregar destinos kármicos que nós mesmos construímos, sem nos apercebermos da dimensão autopunidora do seu próprio destino...

14.3.17

PRITZKER DO AMOR

1. Não há arquitectura no amor... nem matemática, nem geometria. Um amor muito calmo, pensado, ponderado, sem variações emotivas, pode ser muita coisa mas não é amor...

 2. Desenha um esboço. Imagina as arestas e a profundidade. Junta os materiais, concepciona o espaço e as variáveis arquitectónicas. Manda executar. Pronto. Aí está o edifício giraço, moderno, à medida do desenho e do papel, e do estudo feito para a sua concepção. Há ali muito trabalho, muito empenho, mas não há amor. Há apenas arte. 

3. Desenha um jardim. Um espaço. Permite que alguns elementos se agreguem por si. Pedaços de relva, pequenos caminhos de terra batida ou cimento, bancos, fontanários, jardins suspensos... Não os idealizes em sítios exactos. Tem apenas a noção de não ficar tudo caótico, mas em harmonia que convida a visitar. Deixa que o resto se altere por si, e que alguém que passe mesmo quando estavas a projectar tudo tão certinho, desarrume no bom sentido o que até ali não tinhas pensado. Vai arquitectando assim. Hoje um plano rigoroso para as abóbadas da catedral e para os frontispícios que queiras fazer; amanhã um elemento em que não tinhas pensado mas deixaste ficar mesmo sob pena de pensares que te vai arruinar o projecto e os planos. Porque nem tudo é rectilíneo na vida. Nem sequer o que concepcionámos. E é nesta construção que nos diz que a vida não é dicotómica, mas uma constante dinâmica, que perceberás que mais do que um mero exercício técnico, arquitectónico e artístico, desenhar linhas e envolver espaços e design, é também desenhar o sentimento, como a amplitude do Taj Mahal, que fazendo-se de pedra mármore numa brutal imponência, nasceu do desejo de homenagear o próprio amor, e só depois os arquitectos compuseram o monumento, não como um exercício meramente estético ou artístico, mas como a prova física de um sentimento que o fez... Há ali muito trabalho, muito empenho, mas não apenas arte. Há amor... 

4. Não há arquitectura no amor... nem matemática, nem geometria. Um amor muito calmo, pensado, ponderado, sem variações emotivas, com medo de se entregar, pode ser muita coisa, mas não é amor... Na arquitectura dos afectos, não existem seguros de vida. Só a confiança no próprio acreditar...

24.2.17

EGOS IGNORANTES E BALOFOS

A entrega, quando gratuita, faz-se dádiva e é aqui que reside o mérito: no sairmos de nós, no sairmos das palavras e ir ao encontro mesmo de quem não conhecemos. 
 
Há solidões disfarçadas, mansões desabitadas, cruzes que se carregam sem ninguém imaginar. Pode até parecer patológico, mas são apenas defesas propostas pelo inconsciente para mascarar a própria fragilidade.
 
Os sentimentos mais nobres geralmente são os que se intuem, porque tal como um pobre envergonhado, dificilmente exporá em praça pública a sua condição, porque a sua dignidade não está comprometida. E, é também por isso, que a inteligência sem sensibilidade vale muito pouco porque é um mero instrumento ao uso da razão. Ou seja, todos estamos comprometidos. Ou ainda, como diz Pessoa "ser austero é não saber esconder que se tem pena de não ser amado".
 
Darmo-nos é um acto só dos grandes e do alto da sua redoma de vidro, talvez muitos sejam pequenos para isso. Assim como receber implica a gratuitidade simples e amiga, como quem abre as mãos reconhecido e não as fecha nos punhos do ego sem razão...
 
Há dias foi o dia dos gatos; eu gosto mais de cães. Mas celebrar os animais é apenas outra forma de celebrar essa osmose de afectos e de amor, que entre si os humanos tanto rejeitam mesmo precisando...

9.2.17

QUANDO ME DEIXARES ENTRAR EM TUA CASA...

 
Quando me deixares entrar em tua casa com o pó por sacudir, saberei que não é na geometria das coisas que vives, mas na diária tentativa de ergueres na alma o aprumo que te falta. E se o sorriso te esconder a vergonha, não confundirei com negligência a prisão do ser, que hipotecado em cíclicos desencantos e abúlica energia, aguarda que a chama se acenda num frágil pavio, sustendo os serviços mínimos do ânimo até que os grilhões te libertem, dando à vida novo rumo e nova cor, vestindo de alegria o cheiro a mofo de uma vida anémica.

Mas se me convidares para tua casa reluzente e bela com jardins e mesa para os convidados...! Se me chamares a participar da perfeição das coisas num festim de luxo que te exulta a felicidade...! Se me mostrares que não há pó em tua casa e lavas a cara com o perfume que te invejam...! Se principescamente te vestires e tudo for majestático como os livros encadernados a ouro na estante da vida...! Se os móveis adornados em talha de pérola de títulos académicos, e as tapeçarias e sofás ampliarem o espaço exíguo da alma que não mostras... então vou desconfiar que estejas bem, e invento uma desculpa qualquer, porque até que outras nuvens passem sobre o teu céu, é nas cores esmaecidas que jazes vivente, qual divisão da casa fechada a todos, com a desculpa de não habitar lá ninguém.

Porque o erro da felicidade é confundi-la com a perfeição, mas eu só vejo perfeição naqueles que embora com brio e desvelo, têm sobretudo muito amor, e nem por isso se envergonham de uma casa desarrumada com livros pelos cantos e postais a forrar lembranças, tirando do frigorífico um iogurte quase fora de prazo ou o caviar da conversa humana, tão distinta daquela onde se fala tanto e não se diz nada, apenas aumentando os handicaps pela maledicência da vida, sucessos profissionais, veladas invejas e sorrisos petrificados no blush social.

Mas o festim simples e libertador da alma não é este, e pode durar uma noite inteira. Não teve convivas nem flutes, nem roupas de ocasião. Se calhar tinhas até o cabelo por lavar ou uma nódoa antiga, como os livros amarelados de serem lidos e mexidos, ou os objectos puídos pelo uso emocional que só tu vês! Mas é quando os outros regressam com portos de honra, para desembrulharem durante a semana, toda a frustração e infelicidade, que metidos em fatos Armani ou vestidos Prada, não puderam desencarcerar numa festa que devia ser encontro.

Convida-me só quando tiveres pó em tua casa, e saberei que o quarto fechado onde mais ninguém entra, para iludires nas restantes divisões da alma a felicidade que não tens, é exactamente aquele onde verdadeiramente és e te libertas, e onde me deste a honra de entrar até à festa onde a alegria é já sentida e a harmonia das coisas são mimos que ofertas, e não já como o príncipe que recebe duzentos convivas no castelo sabendo que na verdade não teve lá ninguém...

25.1.17

DO (DES)INTERESSE

Um amigo escreve assim: "já não espero coisas boas ou más,(...)e se calhar já não acredito assim sem mais nem menos nas pessoas(...)muita vezes parece que entro numa porta e me deparo com um beco sem saida (...).A questão é se aquilo que fazes tem impacto na vida das outras pessoas, aquilo que eu tenho visto foi pouco ou nenhum, ja nao estou para ensinar ninguém ou ate partilhar o que eu sei, e muito menos mudar as pessoas, cansei-me de fazer isso, deixei de me importar...".
 
Tantas vezes nos sentimos assim, desorientados e impotentes, e claro que em todos estes "já não me importo" está uma vontade contrária, apenas ofuscada pela falta de feedback! Precisamos de nos perdermos para nos encontrarmos, e mesmo que não nos encontremos o que importa é o caminho que fazemos!
Dos outros esperamos sempre mais porque também damos muito de nós, mas precisamos de saber que não está no nosso poder mudar o outro, que é em si um mundo de que apenas vemos uma parte, e que temos de viver com isso; resta-nos não desistir de sermos nós, ainda que não aprendam ou agradeçam!
 
Tal como não podemos controlar o que o outro sente e como se manifesta (deixando-nos tantas vezes revoltados com as suas atitudes tirando-nos a paz), também não podemos pretender que aprenda e mude como gostaríamos, o que não significa que tenhamos de elogiar o seu estilo, mas é em nós que está a diferença, não no outro, em aceitarmos com a paz possível num exercício que não é fácil mas que é o único possível, que as atitudes não dependem de nós, mas sim o que sentimos...

10.1.17

ACENOS?





É nos gestos efectivos que o amor (se) transforma.

Caso contrário, seremos meros reagentes a acenos de amizade!

1.1.17

PAISAGENS NA VIDA

 
 
Começa lentamente a viagem, e muitas paisagens se vão repetir em glória e em sangue. O ritmo aumentará e a distância também, até que nada reste do que ficou para trás, excepto a bagagem a nossos pés.
 
Os carris serão intermináveis e nunca se verá o revisor, cabendo avaliar a familiaridade dos sítios por onde passamos e saber se saímos.
 
O destino será sempre o momento da decisão que a qualquer instante se pode ter. O comboio pára várias vezes mas não o suficiente para prospectivar o local, mas o rumo pode sempre ser retomado.
 
E em terras áridas ou fecundas, nalgum lado se abrirão as portas para um novo caminhar...

29.12.16

DA SIMPLICIDADE E ALEGRIA DO COMUM


Dos fracos não reza a História, diz-se, mas talvez que a nossa concepção de fraqueza seja, afinal, a simetria da glória.
 
A azáfama diária pode dar a entender um ser perfeito, confiante e enérgico, mas a realidade convive sempre com os “apanhados”. Esse lado natural e espontâneo que dispensa o toque da roupa ou a imagem fabricada, a tecnologia de ponta ou a intelectualidade quotizada.
 
Compreendemos as defesas por imperativos pessoais, mas também não devemos esconder a fragili...dade que nos torna verdadeiramente humanos. Para mim não contam tanto os dias festivos, mas antes os anónimos dias da semana. São tão mais importantes, porque são eles que forjam o resultado continuado. As festas, encontros e afins têm o seu lado lúdico e mais do que isso, mas esgotam-se aí. Como diz a canção "Who's gonna drive you home?"
 
A noite prepara o dia mas não recebe os agradecimentos. Da simplicidade nasce a alegria dos pequenos nadas. As coisas grandes são para todos; as pequenas são, de uma forma ou de outra, para os que me são mais queridos.